Arquivo para Janeiro 2008

Néctar

Brinca
Com a ilusão
De que eu existo
No teu mundo
Derramando pérolas
Transparentes de paixão
Com um brilho intenso
Saindo do canto mais profundo
Do meu coração.

Colecciona todas elas
Num hermético recipiente
Para que não se evaporem
Da tua mente
E, quando a saudade
Acordar,
Tira e prova uma delas,
Sente o seu odor
Inebriante,
Junta uma lágrima,
Saboreia
E deixa-te embriagar
Com esse néctar
Incolor,
Receita de fadas e duendes,
Feito por mim
Num sonho
De amor.

Um rio com vida…

Um rio com vida…
Nas águas límpidas de um rio
Corre a força de um olhar,
Não tem rosto, não tem olhar
Tem o sorriso puro de uma gota
E a certeza de te procurar.
Por pedras, correntes e ramos
Percorre distâncias infinitas
Sem nunca te encontrar,
Toca ténues imagens dos teus lábios
Na esperança de te abraçar.
De margem em margem perdida
Deixa-se no teu corpo aninhar
Numa entrega sem depois,
Num momento intemporal,
Para só depois sonhar.
Ao longe alcança terra
Na felicidade do teu amor,
Mergulha na profundidade, sem nunca hesitar
Entrega-se de alma na essência de amar
Apenas com vontade de te acarinhar.

Autor: Berta Maria Machado da Silva

Gênese

Amar a alma
Inevitável em sua pureza cromática
No alvo beijo a beber o abraço
Das bocas a se encontrarem sedentas
Pelo desnudar das almas
E do fio único a velar
O cálido corpo desejante.

O enlevo tornado infindo,
quando à alma goza o abraço
e à volúpia transpõe o êxtase
e os corpos quedam-se repletos
a gozarem sua plena imperfeição,
é inefável às bocas fatigadas
e às mãos a repousarem arquejantes
sobre os sexos saudosos e silentes.

O êxtase do instante se expande
Às almas a entreabrirem-se em flor
Transbordando eternidades
A deflorarem a noite insondável.

O corpo morre no seio da noite
Para que nasça a alma…
E os amantes
Despem-se,
Pela primeira vez.

Autor: Gustavo Figueiredo

Amor

Quando te conheci
Gostei logo de ti
Mas nunca pensei sentir
O que sinto hoje por ti

Entraste de mansinho
Entraste sem bater
E eu nos teus braços
Acabei por me perder

Contigo a minha vida
Tem outro sentido
Surgiste sem avisar
P’ra mim és muito querido

És tudo para mim
Sem ti não sei viver
Vem comigo caminhar
Juntos vamos vencer

Quando penso em ti
Meus olhos parecem rir
Faço tudo p’ra estar contigo
Não te quero ver partir

Autor: Carla Jesus

Ainda mais

Busquei, querido amor, lá nesses céus,
A luz que me dá vida, que me guia,
Busquei a sua origem, dia a dia,
Até que a encontrei nos olhos teus.

Ergui, bem alto, a voz, orei a Deus
E pedi-lhe, repleto de alegria,
Que as emoções que, junta a ti, sentia,
Fossem, para sempre, os sonhos meus.

E se o amor me diz que a busca é finda,
Meu coração desperta em mil natais
Cada um brilhando em cor tão linda,

Que os nossos segredos serão iguais:
- Tu dizes que me queres mais ainda!
- Eu juro que te quero ainda mais!

Autor: Tiago

Saudades do teu amor!

Já vai longe o tempo em que tocar-te era a luz do dia,
Vai longe o cheiro que sentia…
Infelizmente não passam de lembranças,
Neste mundo de mudanças!
Saudades de tocar-te, de te abraçar…
Saudades das palavras que trocámos com furor.
Palavras já gastas de tanto lembrar…
Tão inócuas e incendiadas por tanto amor.
Tudo acabou… tudo se desvaneceu!
Se arrependimento matasse,
Estaria já enterrada,
É como me sinto,
sempre que penso em ti, amargurada!
Prossigo no entanto uma vida, um tanto ao quanto vulgar
Por guardar no meu coração para sempre o teu lugar!
Por cem anos que viva…
Estarei sempre à tua espera,
Por arrependimento, sofro esta quimera!

Sobre o poente…

gosto do pôr-do-céu
no pôr-do-sol no mar
e do pôr-do-sol no mar
no adentrar da terra
quero o pôr-dos-teus-olhos
no pôr-do-céu dos meus
e adentrar os meus-mar
nos teus-terra
com o pôr-do-sol no mar
ao fundo… sobre o Poente…

Autor: Cristina Fidalgo

Tenho o teu cheiro dentro de mim

Tenho o teu cheiro dentro de mim
Tenho-o na minha lembrança…
Sossega-me a alma
Ter-te a meu lado!
Companheiro,
Amigo,
Confidente,
És para mim o meu porto de abrigo…
A quem recorro para desabafar!
Enfrentas comigo o mundo
Que dizes não ser maior que eu…
Pois,
Eu penso diferente!
O nosso amor…
Esse sim…
É maior que o mundo.

Autor: Sandra Amaro

Teu corpo, árvore

Não sei de que amora azul silvestre
Nem de que fundo acidulado
Demora teu corpo lento agreste
Rente ao meu corpo aprisionado.
Sei só teus braços ramos norte
Troncos e pernas tropeções
Sei só do frio que lavra forte
Corpos e braços e corações.

Autor: Rafael Caitano

Dormindo

Quando o Amor te vier despertar,
Sem setas, sem asas, apenas ar,
Continua a dormir.
Quando ele se quiser apresentar,
Cobrindo-te os seios, cheios, com flores,
Néctar, beijos, e nocturnos odores,
Aspira-os como se fosses mar,
E continua a dormir.
Que o Amor, tal como o fogo, é assim,
Feito de luz aberta à escuridão.
Sussurra entre os lábios que és um não
E escreve com os dedos que és um sim.
E continua a dormir,
Quando ele, o Amor, te vier raptar.
Imitando o mar, deixa-te levar
Até ao mais fundo infernal dos leitos.
Juntem os dois peitos,
Acordando apenas para as carícias
E delícias eternas
De quem, como tu,
Se descobriu nu
Perante a luz velada das lanternas
A que chamam estrelas.
Essas, que sem sê-las
Assim se fixaram no firmamento,
Alheias à morte e ao pensamento.
Sossegadamente, assim, a dormir…
E há quem diga que a sorrir.
Como tu.

Autor: Manuel Anastácio